David contra Golias, ou o Syriza contra uma hidra europeia com muitas cabeças

A luta entre o Syriza e a Europa é uma espécie de David contra Golias.

De um lado está um partido que nem sequer teve a maioria absoluta dos votos nas eleições, e que governa agora um país pequeno, que vale cerca de 2,5% da economia europeia. 

Do outro está uma hidra de muitas cabeças: a troika, o BCE, a Comissão Europeia, o FMI, a Alemanha, o Eurogrupo onde estão representados os outros 17 países do euro, etc. 

Não seria de esperar que o David, em menos de duas semanas, conseguisse obter grandes vitórias, e muito menos aquilo que defendeu em campanha eleitoral, onde na Grécia, tal como cá, se dizem muitas coisas só para ganhar!

 

Passos Coelho, por exemplo, na campanha eleitoral prometeu acabar com a austeridade, não descer salários nem pensões, e não aumentar os impostos. Depois, fez tudo ao contrário.

Para ganhar as eleições, diz-se muita coisa, e o Syriza fez o mesmo: perdão da dívida grega, fim da austeridade, subida geral dos salários, etc. 

Portanto, há sempre que dar um desconto nestas coisas: o que se diz em campanha, serve para tomar o poder. Depois, há que perceber o que se pode ou não fazer.

 

É pois normal que, ao longo destas primeiras duas semanas, o Syriza tenha anunciado algumas medidas que quer levar à prática (subida do salário mínimo, suspensão de duas privatizações, etc), e ao mesmo tempo deixado cair pelo menos uma das suas bandeiras, o perdão de metade da dívida grega. 

Isso só mostra que, apesar de querer mudar algumas políticas internas, o Syriza tem flexibilidade para compreender que não pode pedir loucuras aos seus parceiros europeus, nem subverter todas as regras da União.

 

Para já, parece-me que o Syriza marcou pontos na operação de charme que fez em várias capitais europeias. Em Londres, Paris, Roma, conseguiu algumas declarações simpáticas dos governantes locais. 

É verdade que na Alemanha não foi assim, mas também ninguém esperava que Schauble o recebesse com palmadinhas nas costas e de braços abertos.

 

Já quanto ao BCE o caso fia mais fino. 

A decisão do BCE em deixar de aceitar a dívida grega como colateral foi um golpe sério nas intenções do Syriza, aumentando o perigo de não existir acordo.

Porém, logo no dia seguinte, talvez com um pouco de sentimento de culpa, e certamente com vontade de não lançar demasiadas achas para a fogueira, o BCE fez saber que a ajuda de emergência aos bancos gregos pode ser usada, e há 60 mil milhões à disposição para qualquer eventualidade. 

Ou seja, deu um golpe forte, mas 24 horas depois tentou suavizá-lo. 

 

Como seria de esperar numa negociação entre um David e um Golias, ou mesmo vários Golias, é óbvio que o Syriza terá sempre muitas dificuldades, mas não me parece de todo impossível que possa existir um acordo entre todos.

É claro que o Syriza terá de ceder em algumas áreas, mas se conseguir uma folga para esbater a austeridade interna, se conseguir acabar com a instituição "troika", negociando diretamente com as partes, e se conseguir uma extensão dos prazos de pagamento da dívida, já será um bom feito.

 

É preciso recordarmos que este é apenas o início de um longo processo de negociações, um processo que não termina com o primeiro passo, um acordo para o programa de assistência, mas que se vai prolongar por vários meses, ou mesmo anos.

É evidente que este momento inicial é importantíssimo, mas é apenas a primeira de muitas batalhas, e não julgo que se vá poder dizer que o Syriza foi derrotado ou vencedor. 

Na Europa, as negociações são permanentes, não uma questão de tudo ou nada. 

Como dizem os chineses, uma longa jornada começa com o primeiro passo.

Se o Syriza conseguir que a Europa dê um primeiro passo em direção a uma mudança de políticas, já será muito bom.

publicado por Domingos Amaral às 11:13 | link do post