A Europa ainda é uma deusa grega?

Europa era uma deusa grega, que Zeus, o mais importante dos deuses do Olimpo, raptou um dia, por ela ser tão bela. Disfarçado de touro branco, Zeus levou Europa para uma ilha, e depois de regressar à sua forma divina, os dois apaixonaram-se e tiveram três filhos.

 

Porém, o pai de Europa, desgostoso, nunca encontrou a filha, e diz-se que vagueou por muitas terras, continente fora. A sua busca levou-o a locais que hoje conhecemos como Alemanha, França ou Itália, à procura de Europa, e foi por isso que o continente ganhou esse nome tão bonito.

 

Mas será que a Europa dos nossos dias ainda é uma deusa grega?

Não parece. As escandalosas declarações de alguns políticos europeus, o "bullying" financeiro que fizeram nas últimas semanas, a campanha indecorosa pelo "Sim" de quase todos os governantes europeus, mostram-nos que há uma fúria anti-grega difícil de aceitar ou compreender.

 

Com grande coragem, os gregos rejeitaram a continuação na estrada da austeridade, que não leva a lado nenhum. Porém, não creio que o resto da Europa tenha percebido a ideia. 

As declarações acintosas, de mau perder, e as proclamações de desprezo e promessa de mais dureza negocial, são um mau indicador do que aí vem. Pelos vistos, a Europa não tem nada de deusa grega.

 

Pelo contrário, parece um médico louco, que continua a receitar ao doente o mesmo tratamento, sem notar que ele está cada vez pior.

- Sr. doutor, estou a tomar isto há cinco anos, e não melhoro, pelo contrário. As dores são insuportáveis. Não devia mudar de remédio?

- Ahn? Pois...continue a tomar esses remédios e volte cá para o ano.

 

Foi contra esta inenarrável estupidez que os gregos se revoltaram, e por isso disseram "Não" de forma límpida e serena. Mas, os médicos continuam loucos, e na ausência de uma voz dissonante que os leve de volta à lucidez, nada mudará.

Memso quando os sinais de disponibilidade da Grécia são permanentes. A saída de Varoufakis, que lamento porque gosto dele, é mais uma demonstração de vontade de negociar.

 

Demitindo o seu ministro das Finanças, Tsipras acaba de dizer ao Eurogrupo que não serão o feitio e a personalidade de uma pessoa, seja ela quem for, que impedirão um acordo.

Todos os que diziam que o Syriza tinha uma estratégia óbvia de saída do euro devem agora reformular o argumento. Mais vontade de ficar no euro é difícil.

 

O problema não é, nem nunca foi, o que os gregos querem. O problema é o que os europeus não aceitam.

Há cinco anos que na Europa se repete o dogma de que austeridade é a única saída da crise. Como se fosse uma questão de fé, religiosa e inabalável. 

Ora, discutir com fanáticos é quase impossível.

 

Se os líderes europeus, e as suas instituições, não estão dispostos a mudar de rumo, e a experimentar uma abordagem nova e diferente, não há grande futuro.

Nem para a Grécia, nem para a Europa do euro.

Qualquer dia seremos todos como o pai da deusa, à procura de Europa sem a encontrar. 

publicado por Domingos Amaral às 12:15 | link do post