Também quero ser cardeal!

É em momentos como este que vale a pena ser cardeal! Eu gostava, confesso. Vestido de preto e vermelho, andando lentamente e com a dignidade que o cargo exige, entraria para o Conclave concentrado, motivado por ir participar num momento histórico: a eleição de um novo Papa!

É assim mesmo, aqui repito: nestes momentos épicos eu gostava de ser cardeal! Há uma solenidade na eleição, um misticismo eleitoral fascinante naquelas reuniões à porta fechada, um suspense digno de Hitchcok, uma expectativa no mundo inteiro. Lá dentro, os cardeais; cá fora, os outros. É evidente que eu gostava de estar lá dentro!

A Igreja Católica, é justo reconhecer, tem jeito para estas coisas. Estas superproduções eleitorais fascinam o planeta. Não deve haver nenhuma eleição com tanta audiência. Nem a eleição para a presidência dos Estados Unidos da América fascina tanto o mundo. Um Papa é um Papa.

Todo o ritual da eleição é entusiasmante. Sabemos que eles estão "fechados" dentro do Vaticano, a conversar e a votar; sabemos que vamos saber muito pouco sobre o que se lá passou e ainda bem, pois isso torna as coisas ainda mais misteriosas; e sabemos que um dia, a uma certa hora, vai sair fumo branco de uma chaminé do Vaticano e o mundo inteiro vai sorrir, com uma sensação de felicidade, por saber que há um novo Papa!

Acreditem no que vos digo, mesmo os agnósticos, os ateus e os fiéis de outras religiões assistem com atenção à eleição de um novo Papa, e quando sai fumo branco daquela chaminé também eles, no fundo do seu coração, ficam contentes!

É difícil de explicar porquê, é uma coisa demasiado profunda e irracional para ser bem compreendida, mas há na eleição de um novo Papa uma emoção espiritual positiva que qualquer ser humano, esteja onde estiver, sente. 

Como dizia a revista The Economist esta semana, a igreja Católica é a maior multinacional do mundo, com mais de 1 bilião de consumidores do seu produto, mais de 1 milhão de trabalhadores nos seus quadros, e mais de 10 milhões de voluntários que a ajudam todos os anos. Tem um logo reconhecido em todo o mundo (a cruz), e está a crescer nos mercados emergentes. 

Era bom, para a Igreja e para o mundo, que o novo papa a conduzisse para caminhos ainda mais abertos e modernos. É preciso olhar para o mundo para além da Europa e da América, para as outras religiões, e também para os bocados podres que existem dentro da Igreja Católica. Esperemos que isso seja possível com o novo Papa.

Porém, por agora, deixem-me sonhar em ser cardeal, em caminhar pela praça de S. Pedro, sorrindo e acenando ao público e aos jornalistas, e mantendo o segredo sobre o que se vai passar no Conclave. Sim, deixem-me sonhar em, apenas por uns dias, ser cardeal, entrar na Capela Sistina para ficar sob o olhar dos frescos de Miguel Angelo; e ficar em clausura, feliz por participar na eleição de um novo Papa!

publicado por Domingos Amaral às 10:05 | link do post