Itália: as festas Bunga-Bunga vencem a terrível austeridade

Embora os resultados das eleições italianas sejam bastante complexos e confusos, por causa do sistema eleitoral local, há pelo menos quatro lições que se devem retirar:


Primeira Lição - "A austeridade não fez a Itália sair da crise, pelo contrário".

A economia italiana continua anémica, há muito desemprego, a dívida pública é gigantesca, e não há sinais positivos de crescimento económico. O mix de "austeridade estruturalista", uma mistura de austeridade com reformas estruturais, não melhorou nada a situação, até a piorou. E note-se que Itália foi, de todos os país do Sul da Europa, aquele que praticou menos austeridade! 


Segunda Lição - "A austeridade não é de direita, nem de esquerda". 

Ao contrário do que se tem passado na maior parte dos casos, em que as políticas de "austeridade estruturalista" têm sido conduzidas por partidos de centro-direita - Portugal, Grécia, Espanha - em Itália passou-se o oposto. O país estava a ser governando por Monti, que é de centro-esquerda, mas foi Berlusconi que atacou mais as "políticas de austeridade". Ou seja, neste caso a direita está contra a austeridade, e ganhou votos com isso. 


Terceira Lição - "Ser contra a austeridade dá votos, mesmo que se goste de festas Bunga-Bunga".

Em Itália, o discurso contra a austeridade foi muito popular, seja à esquerda, com a subida do comediante Beppe Grilo e o do seu movimento "Cinco Estrelas"; seja à direita, permitindo a surpreendente ressureição de Berlusconi, um político duvidoso, envolvidos em escândalos sexuais, e que organizava as célebres festas "Bunga-Bunga", uma espécie de orgias porno soft. A incomodidade dos italianos com a austeridade é tal, que até se permitem a votar em políticos como Berlusconi!


Quarta Lição - "A austeridade provoca crises políticas".

É talvez a mais importante lição a retirar destas eleições. A austeridade provoca instabilidade social e política, e leva as pessoas a votarem contra o sistema, e contra o poder instalado, qualquer que ele seja, e normalmente isso provoca instabilidade forte. Foi assim na Grécia, e foi assim agora em Itália. Veremos o que se passará noutros países, mas a crise do euro pelos vistos não tem fim à vista, e tem sido um cemitério de governos. 

 

PS: Eu bem sei que Passos Coelho se está a "lixar" para as eleições, mas por este caminho vai deixar Portugal não só economicamente mais fraco, como politicamente mais instável. É o que dão as políticas de austeridade...

publicado por Domingos Amaral às 10:14 | link do post