O problema sexual da Igreja Católica

Não é preciso ser psiquiatra, nem sequer séxologo, para perceber que a Igreja Católica Apostólica Romana tem um problema com o sexo.

Há séculos que tem um problema, e não há maneira de o resolver. Aliás, nas últimas décadas, o problema em vez de melhorar piorou, e drasticamente.

Quase não há mês que passe sem se ouvir falar de problemas sexuais na Igreja. Ou bem que são os padres pedófilos, ou os padres homossexuais, ou então ouvimos falar na condenação do sexo sem ser para efeitos de procriação, ou nos perservativos, ou em qualquer outra coisa no género.

Esta semana, por exemplo, o tema do momento em Portugal é uma acusação de assédio sexual por parte de um bispo; e o tema internacional é, no contexto da eleição do novo Papa, a possibilidade de participar na eleição um cardeal que fez vista grossa a situações de pedofilia no seu país.

Porque é que isto é assim? Porque é que se passa a vida a falar de questões sexuais relacionadas com a Igreja Católica? Bem, a resposta é simples: a Igreja Católica rejeita o sexo como algo natural a todos os seres humanos (qualquer que seja a sua preferência sexual) e considera o sexo, na maior parte das vezes, como um pecado, só o aceitando como essencial para procriar. 

Ou seja, a Igreja Católica não considera o sexo como uma coisa natural no ser humano, mas sim um mal, um mal necessário em certos casos (para fazer bebés e se as pessoas forem casadas), mas mesmo assim uma coisa a evitar. É este o seu discurso para os crentes, há milhares de anos, e não parece ir mudar.

Além disso, a Igreja Católica continua a obrigar aqueles que a servem a full-time (os padres, bispos e cardeiais) à castidade, que é a proibição total de ter sexo. 

Esta combinação de ideias (o sexo como uma coisa anti-natural e pecaminosa para os crentes, e a obrigação de celibato para os padres) resulta numa situação explosiva permanente, pois a confrontação destas máximas com a vida real dos seres humanos (crentes e padres) é totalmente absurda e irrealista.

A maior parte dos seres humanos não segue as orientações da Igreja Católica nas questões sexuais, e pratica sexo quando quer e à hora que quer, sem sentir que isso é mal ou pecado.

E os padres, na sua grande maioria, têm enormes dificuldades de cumprir o celibato, e por isso se multiplicam as descobertas de "prevaricadores". 

Mais tarde ou mais cedo, esta distância entre o que a Igreja defende e a realidade do mundo vai ter de ser diminuída.

A mim parece-me evidente que não vai ser o mundo a mudar, terá de ser a Igreja. Mais tarde ou mais cedo, chegará um Papa mais esclarecido ao Vaticano, que terá a coragem de confrontar a questão do sexo para a Igreja, e libertá-la deste terrível problema sexual que a consome há séculos.

Faz sentido o sexo ser mal visto, e não um necessidade natural em todos os seres humanos? Faz sentido condenar-se as preferências sexuais das pessoas? Faz sentido impôr o celibato a seres humanos? Faz sentido proibir o uso de perservativos? São essas as questões que a Igreja terá de resolver nas próximas décadas.

Enquanto isso não acontecer, enquanto a Igreja não vencer o seu profundo trauma sexual, e não mudar, vamos continuar a ouvir falar todos os meses de "escandaleiras" que envolvem padres, mais graves ou menos graves.

E também vamos continuar a fazer de conta que ouvimos o que a Igreja nos tem a dizer sobre sexo e que seguimos as suas orientações, o que obviamente quase ninguém faz.

Eu acho que está na altura da Igreja resolver o seu trauma sexual. Talvez o próximo Papa possa ajudar.  

publicado por Domingos Amaral às 15:20 | link do post