O Sporting pode acabar?

O principal problema do Sporting chama-se instabilidade. Instabilidade na presidência do clube, instabilidade no banco de treinadores, e instabilidade nas políticas de gestão desportiva. No Sporting, aplica-se diariamente a célebre máxima de Pimenta Machado, uma espécie de cúmulo da instabilidade: "no futebol, o que hoje é verdade, amanhã é mentira". 

Veja-se a instabilidade na presidência. Nos últimos 30 anos, enquanto o FC Porto teve 1 presidente, o Sporting teve 10. Vários deles, nem duraram dois anos no lugar, como foi o caso de Amado de Freitas, Jorge Gonçalves, Pedro Santana Lopes ou José Eduardo Bettencourt. E o actual, Godinho Lopes, não parece ir durar muito mais do que estes antecessores.

Depois, há a instabilidade no banco dos treinadores. Em 30 anos, desde 1982, o Sporting teve 44 treinadores, se contarmos com Oceano, e Jesualdo será o quadragésimo quinto! Apenas em 12 temporadas não mudou de treinador a meio, e em certos anos, como o actual, chegou a ter 4 treinadores numa época. Nesta temporada, até Janeiro, já se sentaram no banco Sá Pinto, Oceano, Vercauteren e agora será a vez de Jesualdo. 

É claro que esta dupla instabilidade, na presidência e no banco, não trouxe nada bons resultados. O Sporting apenas foi campeão 3 vezes em 30 anos, em 1982, 2000 e 2002.

E a política desportiva foi mudando de rumo, como um imprevisível vento. Umas vezes estava nortada, outras de este, e outras ainda levante. Primeiro apostava-se na formação, depois comprava-se galáticos (Sousa Cintra); voltava a virar-se para os meninos, juntando-lhe uns brasileiros e a seguir apostava-se forte nas estrelas (Jardel e João Pinto), para mais à frente se entrar numa grande redução salarial, que impediu Paulo Bento de lutar por campeonatos.

No entanto, mal Paulo Bento saiu, logo se descobriu o dinheiro, que Bettencourt e Godinho não souberam gastar, pois não têm talento para presidentes de clubes de futebol profissionais. Quando tinha talentos, o Sporting não tinha dinheiro e por isso vendia os talentos. Quando tinha dinheiro, já os talentos tinham fugido.

Godinho Lopes é mais uma demonstração cabal de incompetência. Começa a comprar que nem um desalmado, acho que foram 19 jogadores, todos apresentados com grande fanfarra em Alvalade. Mas mal o barco abana, despede o treinador, Domingos, num absurdo de gestão impossível de compreender. De então para cá, não pára o chorrilho de disparates. Sá Pinto, Oceano, Vercauteren, todos já queimados na fogueira dos resultados.

Há quem diga que o problema é outro: não há dinheiro, e os salários já estão atrasados, por isso os jogadores não correm e não estão comprometidos com as vitórias do clube. Não sei se é verdade, mas parece. O que é verdade é que esta queda a pique é confrangedora e não se vêem saídas airosas.

Um clube grande pode acabar? Não é provável. Não se conhecem histórias de grandes clubes europeus, com muitos sócios, que tenham fechado as portas. Mas podem passar por momentos duríssimos, como foi o caso da Fiorentina e agora do Glasgow Rangers. Talvez seja necessária uma cura purificadora. Os bancos terão de perdoar a já impagável dívida, os notáveis terão de desamparar a loja, e alguém com capital e juízo terá de pegar neste zombie actual e ressuscitá-lo.

Talvez o BES possa comprar o clube, ou aterrem na Portela os russos do Bruno de Carvalho. Para um clube com tantos sócios como o Sporting, morrer não é uma opção. Mas também ninguém quer um morto-vivo, a arrastar-se pelos relvados.   

 

publicado por Domingos Amaral às 16:10 | link do post