Que se lixem as eleições?

Há quase um ano e meio, Pedro Passos Coelho declarou "que se lixem as eleições!", defendendo que iria governar em defesa dos interesses de Portugal e não a pensar em vencer as próximas eleições. Para ele, o que havia a fazer era essencial, e tinha de ser feito, mesmo que isso implicasse que o PSD perdesse muitos votos e muitos apoiantes, arriscando-se a perder.

À primeira vista, isto parece uma declaração nobre e desprendida, de um homem que quer ser um estadista e não um mero político de curto prazo. Ao revelar um forte desprezo pela contabilidade eleitoral futura, Passos Coelho mostrava a sua grandeza, a sua diferença face aos políticos do passado, e o seu patriotismo. 

Contudo, esta vontade de um político ser "estadista" em vez de ser político, costuma dar mau resultado, e o desprezo pelas eleições costuma ser um indicador claro que há um divórcio entre a vontade do governo e a vontade do seu povo.

Ou seja, ao dizer que não quer saber de eleições, o que Passos Coelho está a dizer é que vai governar contra as pessoas, fazendo coisas que as prejudicam. O facto de isso ser supostamente feito em nome do superior interesse nacional, em nome duma entidade abstrata chamada Portugal, não invalida que serão as pessoas a avaliar o governo.

Temo que, nas próximas eleições, o PSD sofra uma derrota histórica e colossal. O CDS talvez resista um pouco melhor, mas poderá também perder alguns votos, e a consequência desta máxima de Passos Coelho, do tal "que se lixem as eleições", será uma grande vitória das esquerdas, com a subida dos três partidos de esquerda: PS. PCP e Bloco. 

Convém lembrar que foi isso que aconteceu ao PS de Soares, em 1985, quando governou com o programa do FMI. Nas eleições seguintes, teve um colapso, descendo até 22 por cento, à custa do aparecimento do estranho fenómeno chamado PRD.

Em 2013, governar assim, "lixando-se para as eleições", poderá acabar num monumental desastre para o PSD e para o país. Com o desemprego sempre a crescer, com a recessão a apertar, é evidente que muitos portugueses acabarão por entregar a sua ira e a sua revolta nas mãos da esquerda mais radical.

Por sorte, não parece haver por cá o crescimento da extrema-direita, mas no dia que a extrema-esquerda crescer tanto que for impossível governar sem ela, talvez Passos Coelho se arrependa de ter dito o que disse.  

publicado por Domingos Amaral às 10:55 | link do post