O mundo é um gigante jogo de vídeo

Em casa de um amigo meu, sempre se havia jogado muito. A avó praticava o bridge com as amigas, o pai apostava nas corridas de cavalos inglesas, ele crescera a lançar os dados do Monopólio. Porém, nunca vira nada como isto. Quando entrou na sala e olhou para a família, não havia um único deles que não estivesse a jogar. 

O irmão jogava partypoker, no notebook que recebera nos anos. Adorava, tornara-se um especialista, e já ganhara dinheiro várias vezes. A cunhada por vezes protestava, mas como também jogava muito Tetris no seu iPad, tinha pouca legitimidade. Era o caso, no momento. 

Já a sua mulher estava com o laptop aberto, em cima da mesa, conectada no Facebook, a jogar Cityville. Todos os dias, dezenas de amigos "convidavam-nos" para jogar jogos com nomes extraodinários como Bubble Safari, Gardens of Time, Ruby Blast Adventures, que ela ia experimentando à vez. 

A um canto da sala, a sua filha mais velha teclava o Angry Birds furiosamente no seu telemóvel, como se o futuro dela dependesse dos resultados. E em frente à televisão, o seu filho, com o primo ao lado, girava os comandos da Playstation 3 com imensa perícia, conduzindo o seu automóvel no jogo Grand Theft Auto 5, a última coqueluche, que os obrigara a uma viagem específica ao centro comercial. 

Quando informou a família de que eram horas de jantar, pois estava cheio de fome, nenhum deles levantou sequer a cabeça. O irmão virava cartas, a mulher dava ao dedo, a cunhada premia botões, a filha murmurava improprérios, o filho mexia os braços e o sobrinho admirava o ecran da televisão, mas ninguém queria jantar. 

Jantar era uma coisa do passado, já ninguém jantava à mesa, nem conversava. Era capaz de até haver jogos sobre isso, bem melhores que a realidade. Portanto, foi para o quarto e abriu o seu computador. Com sorte, ainda ganhava mais que o irmão...

publicado por Domingos Amaral às 15:56 | link do post