Uma casa dá tanto trabalho...

Uma casa dá tanto trabalho. É a porta para o terraço que está perra e não quer fechar; o cano do lavatório da cozinha que tem de levar com um gel desentupidor, dia sim dia não, para não se encher de calcário; os brinquedos das crianças espalhados pela sala todas as noites; a porta do frigorífico cujas dobradiças tiveram de ser substituídas; o tapete da sala que estava velho, sujo e cheirava mal; a torneira do bidé que se estragou; o cão que patanha o chão sempre que chove em Lisboa; a box da televisão que se desliga sem ninguém lhe tocar; o estore de um quarto que bloqueou e o estore de outro quarto que ameaça bloquear; o cesto da roupa suja que está gasto pelo tempo; o canudo do rolo de papel higiénico que espera ser trocado por um novo rolo; uma rede pendurada no tecto de um quarto que acabou de ceder e tem de voltar a ser pendurada; o pêlo dos cães que se esconde nos cantos das assoalhadas, como um bandido fugido da prisão que evita ser apanhado; os posters colados nas paredes que estão rasgados e feios; as cortinas da sala que estão a precisar de ser lavadas; os livros para os quais já não há espaço nas prateleiras e têm de ser deitados por cima dos outros; o comando da garagem que necessita de trocar a pilha; a lenha que ainda não foi encomendada apesar de o frio já ter aparecido; a máquina de lavar a loiça que desatou a produzir estranhos barulhos ao ser ligada num programa qualquer; as facas que deviam de ser afiadas; os tupperwares que já não cabem no seu local no armário e caem, sempre em grupo, talvez por solidariedade; as ervas daninhas que crescem impunemente nos canteiros do terraço; as camas dos cães que eles, num acesso de brincadeira irracional, acabaram de destruir à dentada; o despertador de uma criança que toca a estranhas horas e precisa de ser reprogramado; a lista de supermercado onde falta sempre alguma coisa; a televisão que avariou com uma trovoada; as gavetas da mesinha de cabeceira que estão atolhadas de inutilidades que nunca usamos. Uma casa dá tanto trabalho...Contudo ontem, ao pensar nisto, adormeci feliz. 

publicado por Domingos Amaral às 12:35 | link do post