O euro e a reputação de Portugal

Daqui a cinquenta anos, quando os historiadores olharem para as estatísticas do início do século XXI, vão ser difíceis de perceber os benefícios da entrada de Portugal no euro. À medida que o tempo for passando, e os efeitos da ilusão monetária em que o país viveu se dissiparem, a imagem nítida que vai aparecer é a de que a adesão à moeda única prejudicou muito Portugal.

Em 2012 e comparando com 1998, último ano do escudo, quase tudo está pior. O desemprego em 2012 é muito superior, a carga fiscal em 2012 é muito superior, o endividamento privado é muito superior, o deficit orçamental do Estado é mais alto, a dívida pública é muito mais alta, o desequilíbrio da balança comercial ou da de capitais são muito superiores ao que eram em 1998. E, claro, o crescimento económico de Portugal desde que entrou no euro é bem menor do que o das décadas anteriores, quando ainda tínhamos escudo. 

Quinze anos depois, Portugal só desceram a inflação e as taxas de juro, ambas menores do que antes. O euro desinflacionou a nossa economia, mas o preço que pagámos foi altíssimo. Nem as finanças públicas se equilibraram, nem as privadas melhoraram, nem a moeda única trouxe crescimento económico para novos sectores, enquanto os tradicionais sofriam e alguns quase desapareciam, como a agricultura e muita indústria.

Mais grave do que isso, é que o euro colocou em causa a reputação de Portugal nos mercados internacionais. Durante todo o século XX, Portugal não entrou em bancarrota nem uma única vez! Nem a confusão da República, nem Salazar, nem o 25 de Abril causaram tantos transtornos ao país como o euro. 

No século XIX, tínhamos sofrido crises dessas por seis vezes, mas a última fora em 1890, e não mais o país sofrera um problema grave de dívida externa, ao contrário por exemplo da Grécia, que teve uma bancarrota em 1932, ou mesmo da Alemanha, que teve duas bancarrotas, em 1932 e 1939.

As crises de inflação em Portugal também foram poucas em 100 anos, e nunca tivemos nenhum surto de hiperinflação, ao contrário por exemplo da Grécia, em 1922 e 1923, ou da Alemanha, em 1920 e 1923.

E ainda mais impressionante é o nosso registo perfeito no que toca a crises bancárias. Até 2008, Portugal era a única economia avançada que não tivera uma única crise bancária grave desde a Segunda Guerra Mundial! Apesar de termos tido duas crises de balança de pagamentos, em 1976-77 e em 1983-84, nenhuma delas foi suficientemente grave para manchar a nossa reputação internacional, que o euro em pouco mais de 10 anos colocou em risco. 

Em 2011, o resgate internacional a Portugal, executado pela "troika", mostrou com dureza que o euro debilitou Portugal, ao ponto de o país ter de se retirar dos mercados internacionais, coisa que nunca lhe acontecera desde 1890! Além disso, deram-se vários colapsos bancários. Faliram rotundamente o BPP e o BPN, e mesmo o BCP, o BPI e a Caixa Geral de Depósitos tiveram de ser resgatados pela "troika", pois corriam o risco de se afundarem.

A liberalização financeira, a liberdade de movimentação de capitais e as descidas abruptas da taxa de juro, trazidas pelo euro, foram uma cocaína perigosa para Portugal, e produziram uma grave crise que vai durar várias décadas a corrigir. Algo correu mesmo muito mal, para um país tão cumpridor e tão estável nas suas finanças, como Portugal foi durante mais de cem anos, acabar como está.

E, para quem acha que fomos os únicos, convém dizer que não fomos. Itália, Espanha, Grécia, Irlanda, e mesmo Áustria ou Chipre, estão parecidos. O que me leva a pensar que o problema talvez não esteja em nós, mas sim no euro, uma união monetária tão imperfeita que se transformou numa armadilha perigosa.  

publicado por Domingos Amaral às 11:47 | link do post