Portugal está bem, os portugueses estão mal!

Nos últimos meses, verifiquei uma estranha esquizofrenia linguística no país, que passo a descrever. Quem ouça os políticos a falar, nota que há uma entidade chamada "Portugal" e há outra entidade chamada "os portugueses", e são coisas completamente diferentes, que pouco têm a ver uma com a outra.

Uma pessoa escuta o ministro Vítor Gaspar, o seu congénere alemão Schauble, a senhora Merkel, o Passos Coelho, ou o Selassie do FMI, e todos dizem, com indisfarçável orgulho, que "Portugal" é um exemplo, um caso de sucesso, e a sua recuperação é "extraordinária". Porém, os mesmos personagens reconhecem que "os portugueses" estão a viver dificuldades, que sofrem muito, que o desemprego dos "portugueses" é alto.

Então em que é que ficamos? Há uma distinção entre "Portugal" e os "portugueses"? Será que existem outros países chamados "Portugal" que eu não conheça? Será que os "portugueses" a quem eles se referem não somos nós?

Nada disso. A verdade é que existe uma entidade abstrata, chamada "Portugal". É apenas um nome, um item da alta finança, uma alínea de um programa de computador, e essa entidade está bem e recomenda-se. Os seus juros desceram e o seu ajustamento prossegue a velocidade de cruzeiro. "Portugal", enquanto marca financeira, está um brinquinho, todo ele lustroso e polido pela esfregadela que já levou. Não há qualquer problema com "Portugal", a não ser os problemas que os outros países nos podem trazer, os chamados "riscos", golpes feitos por mãos cruéis e que nos ameaçam tirar o brilho.

Além disso, existe depois outra entidade, mais concreta, chamada "os portugueses". Esses estão mal, pois infelizmente têm o azar de viver no mesmo local onde existe a tal entidade abstrata chamada "Portugal". Eles que não pensem é que existe qualquer contradição entre as duas coisas, é perfeitamente possível acontecer esta dualidade. O que verdadeiramente importa é "Portugal", e não "os portugueses". Esses, podem viver pior, mas desde que "Portugal" esteja bem, a coisa é perfeitamente suportável. 

Continuam confusos depois deste post? Eu também, pois pensava que Portugal e os portugueses eram uma e a mesma coisa, mas estava enganado. São entidades separadas, diferentes, e portanto não há qualquer impossibilidade teórica de terem destinos diferentes.  

publicado por Domingos Amaral às 11:36 | link do post