Lá vai formoso e bem Seguro

Há um ano, confesso, não dava nada por ele. António José Seguro nunca perdera completamente aquele ar de "jotinha", rapaz que começara cedo a aparecer na televisão e a falar de política, mas não crescera, mantendo ainda um "look" um bocado imberbe, em que era difícil confiar.

Além disso, e apesar de nunca ter apoiado José Sócrates, qualquer líder do PS que lhe sucedesse carregava o fardo pesado da responsabilidade por muitos e gritantes erros de política e de economia. Seguro, ou outro, tinham (e ainda têm) gravado na testa esse ferrete, e por isso parecia que ao PS só restava o papel de espetador calado, embraçadamente comprometido com a governação de Passos Coelho, que não podia nem evitar nem alterar. 

Contudo, os erros de Passos Coelho, em apenas um ano e meio, foram de tal ordem, que Seguro tem vindo a crescer na vida política nacional, e ontem declarou mesmo na SIC que "está preparado". Para governar, entenda-se, o que poderia parecer um absurdo, visto que esta legislatura ainda não chegou sequer a meio, e o governo PSD-CDS tem maioria absoluta parlamentar, mas só não é um absurdo porque o desnorte do governo é de tal ordem, e a fúria da populaça tão profunda, que ninguém aposta muito na sua longevidade. 

Na questão central, Seguro está certo. É absolutamente verdade que este governo se "desviou" do memorando original de acordo com a troika, assinado pelo PS e como o apoio do PSD e do CDS. Passos e sobretudo Vítor Gaspar, impuseram uma linha de aumento de impostos, que provocou uma exagerada recessão, e só agravou o problema do deficit e da dívida. É evidente que o PS, como Seguro bem diz, não tem de aprovar um corte de 4 mil milhões de euros na despesa do Estado, pois esse corte nunca foi aceite pelo PS no memorando original de 2011, e só se tornou necessário devido às graves incompetências do governo e da "troika". 

A defesa de uma negociação mais firme com a "troika" é também correcta. Passos e Gaspar optaram pela "via germânica", aceitando com subserviência e sem contestação, a imposição de um tempo curto e uns juros altíssimos no resgate a Portugal, acompanhados por uma verdadeira enxurrada de austeridade fiscal, sobretudo nos impostos. Ora, a "via germânica" é uma tragédia para a Europa, mas é sobretudo uma tragédia para a Grécia, para Portugal e para a Irlanda, pois transforma as economias numa espécie de "zombies", mortos-vivos sem qualquer hipótese de regressar ao crescimento ou de pagar a dívida. 

Portanto, faz bem Seguro em defender uma estratégia diferente, mais alinhada com Monti e Hollande, e menos lambe-botas da Sra. Merkel. Se ela vai ou não resultar, isso só saberemos no futuro, mas pelo menos tem a virtude de ser uma alternativa possível e menos miserável que a seguida pelo governo. E, se não a tentarmos, nunca saberemos se ela pode funcionar ou não. 

Contudo, só opor-se não chega. Opor-se a Passos Coelho é, neste momento, até bastante fácil. O governo quase se auto-destruiu sozinho, não foi preciso Seguro esforçar-se muito. Mas, para se constituir como uma alternativa real, Seguro ainda tem muito que trabalhar. O povo português, e bem, ainda desconfia do PS, e Seguro terá de dar provas de que os tempos dos despesismo exagerado de Guterres, ou da fase final de Sócrates, não são para repetir.

Ontem, na SIC, Seguro disse que "está preparado", mas parece-me que o país ainda não está preparado para ele. 

publicado por Domingos Amaral às 15:24 | link do post