A "cassete" dos liberais

Antigamente, logo depois do 25 de Abril, os comunistas diziam sempre a mesma coisa, ao ponto de alguém ter inventado a expressão "cassete comunista". Logo que eles começavam a falar, lá vinham "os direitos dos trabalhadores", a "exploração do capitalismo", a "ocupação dos latifúndios", o "direito à greve", "as nacionalizações do tecido produtivo", e coisas assim. Bastava ouvir um comunista a falar, e logo se iniciava uma repetitiva lengalenga de frases amontadas, coladas umas às outras, sempre a dizerem o mesmo. Era cansativo e pouco original, e a expressão cassete assentava bem. 

Quase quarenta anos depois, há uma nova cassete no firmamento político nacional, que é a "cassete liberal". É impressionante, mas tal como os comunistas de ontem, os liberais de hoje repetem, à exaustão, os mesmos conceitos. Lá vem "a diminuição da despesa do Estado", lá vem "a flexibilização da lei laboral", lá vem o célebre "vivemos acima das nossas possibilidades", lá vem o "não podemos gastar o que não temos", lá vem o "monstro que é o Estado", lá vem o ataque às "gorduras". É impressionante como a cassete liberal se repete e repete, como se a sua própria repetição tornasse a realidade diferente.

Tal como os comunistas de outrora, também os liberais de hoje acreditam piamente que, se repetirem as suas crenças todos os dias, desde manhã quando se levantam, até à noite quando se deitam, isso vai resolver todos os problemas do país e do mundo. Infelizmente, não vai. A utopia liberal, é disso que se trata, é igual a todas as outras utopias ideológicas do passado, é como todas as outras cassetes, foram muito ouvidas mas não resolveram nada. As outras utopias - a cassete fascista, a cassete nacionalista, a cassete socialista e a cassete comunista - falharam sempre pelas mesmas razões: a realidade é muito mais complexa do que a ideologia, e nenhuma cassete a consegue explicar. 

Era bom que fosse fácil resolver os problemas do país e do mundo com "menos Estado e melhor Estado", com "menos déficit" e com "mercados de trabalho mais flexíveis". Era bom, mas infelizmente isso só não chega. O mundo não se resolve com crenças e fezadas, sejam elas comunistas, fascistas, socialistas ou liberais. A cassete liberal terá o mesmo destino que as outras cassetes políticas do passado, o caixote do lixo. É uma moda que temos de aturar, mas não vai contribuir quase nada para a melhoria da nossa vida. 

publicado por Domingos Amaral às 11:52 | link do post