De onde nos conhecemos?

Há lá coisa mais constrangedora do que encontrar alguém que temos a certeza que conhecemos mas não nos lembramos de onde? Pior, não nos lembramos do nome! Pois foi isso mesmo que lhes aconteceu, certa noite em casa de uns amigos.

O dono da casa fazia anos e tinha organizado uma festa. Havia talvez quarenta ou cinquenta pessoas, entre a sala, a cozinha e o terraço. Pessoas suficientes para ele conhecer algumas, mas também suficientes para não conhecer todas. Quem era aquele casal ali ao fundo, ele com ar de cientista louco, ela com ar de hippie? Quem eram aqueles três rapazes que fumavam charros na varanda? Pareciam vindos de uma manifestação anti-globalização. E quem era...quem era esta mulher que se aproximava dele a sorrir? 

A cara não lhe era estranha, era bonita, olhos castanhos, cabelo moreno encaracolado. Não era nem muito alta nem muito baixa, vestia uma mini-saia preta e um top sem ousadia demasiada, e ria-se para ele, enquanto andava na sua direção.

Ele sorriu também, mas por mais que esforçasse a memória não se lembrava dela. Ou melhor, tinha uma vaga ideia de que a conhecia, mas isso só servia para o confundir ainda mais, pois é desesperante não se encontrar a ficha certa no arquivo. 

Ela disse:

- Olá, tás bom?

Procurou no seu facebook mental. Seria do trabalho? Duma reunião de marketing? Da empresa anterior, de onde ele saíra há três ou quatro anos? Do seu primeiro emprego? Da faculdade? Do colégio? Da noite?

- Tudo bem, e tu?

Ela riu-se. Porquê? Tinha a certeza que não a conhecia intimamente. Não podia ser uma rapariga com quem tivera uma noite louca, demasiado bêbado para se lembrar. Isso já não lhe acontecia há mais de vinte e anos! Pensando bem, na verdade isso nunca lhe acontecera, lembrava-se de todas as situações, tinha a certeza. Tirando aquela vez em Albufeira, mas isso não contava, eram inglesas.

- Tens estado com a Teresa?, perguntou ela.

Ui, a coisa ia de mal a pior! Qual Teresa? Não tinha nenhuma amiga Teresa, nunca tivera uma namorada Teresa, e também não havia Teresas na sua família.  Mas, não desfez o equívoco.

- Pouco, respondeu. Já não a vejo há imenso tempo.

Ela mostrou-se compreensiva. Pelos vistos ela também já não estava com a Teresa há muito. Mas depois acrescentou:

- Foi uma época bem divertida...

Bolas, cada coisa que ela dizia o confundia mais. Época divertida, sim, mas qual? Parecia uma coisa distante, século passado, talvez tempos de estudante...De repente, ele ficou mesmo aflito, quando ela acrescentou:

- Ainda não sabes usar o Excel? Éramos sempre nós que fazíamos tudo! 

O Excel sempre fora o seu terror! Fosse na universidade, fosse no seu trabalho, era uma desgraça com o Excel, e ela sabia! Portanto, ela conhecia-o, enquanto ele nem fazia ideia de quem ela era, quanto mais se usava o PowerPoint!

Decidiu contra-atacar e abriu um sorriso confiante:

- Melhorei muito desde esses tempos! Fiz um curso intensivo, agora sou uma máquina! Até tenho Twitter! Um rei da informática!  

Ela riu-se imenso, divertida. E perguntou:

- Lembras-te do que dizias da tecla "enter"?

Fez um sorriso matreiro, numa clara sugestão sexual, e o coração dele acelerou. "Enter"? Será que as coisas tinham chegado ao "enter" e ele não se recordava?

- Ou então "insert"..., murmurou, dengosa. 

Ela deu um gole na bebida (a ele parecia qualquer coisa com morango, talvez vodka) e depois suspirou:

- Eras mesmo divertido, Ricardo.

Depois, olhou-o nos olhos e perguntou:

- Estás sozinho?

Ele sorriu, bem disposto. Decidiu que não valia a pena tentar vasculhar mais os seus neurónios, já não era importante lembrar-se. Ela estava claramente disponível, e mais valia aproveitar. Disse:

- Fiz um "delete" à companhia...

Riram-se, e horas mais tarde estavam abraçados, dentro do carro dele, aos beijos. Haviam bebido bastante, dançado bastante e conversado pouco, mas agora já não era hora de conversas, por isso ele ficou verdadeiramente surpreendido quando ela parou a meio de um beijo e franziu a testa.

Ele puxou-a mais para perto, as mãos à procura do peito dela, mas ela afastou-o. Intrigada, comentou:

- Acho estranho uma coisa...

Ele olhou para ela, respirou fundo, e perguntou:

- O quê?

Ela continuava de testa franzida e disse:

- Nunca disseste o meu nome...Nem uma vez...

Ui, agora é que ela se lembrava disso? Claro que nunca dissera o nome, como é que ele podia dizer se não se lembrava dela? Mas agora, já com as mãos aceleradas a explorar a anatomia dela, é que ele ia ter de parar? Que tortura...Então, a solução saiu-lhe num segundo:

- Princesa...Os outros podem chamar-te o que quiserem, mas para mim és princesa!

Foi pior a emenda que o soneto. Ela olhou para ele verdadeiramente horrorizada e exclamou:

- Que foleiro! Além de mentiroso és foleiro!

Ele ficou aterrado, sem saber o que dizer. Chocada, ela gritou:

- Tu não és o Ricardo, pois não? Tu não te lembras de mim, pois não?

Ele engoliu em seco. Não sabia mesmo o que fazer. É evidente que não era o Ricardo! Mas, apesar de tudo, era um tipo simpático. Ela não tinha sido obrigada a nada! 

- Como é que tu te chamas?, perguntou ela, irritada.

Ele esclareceu-a, honesto. Explicou que havia coisas na história que batiam certo. Lembrava-se dela, não sabia usar o Excel. Tirando o pormenor da Teresa, deviam ter-se conhecido mesmo, há uns anos atrás, em algum lugar. 

Então ela suspirou e disse:

- A culpa é minha.

Ele perguntou porquê e ela explicou:

- Tenho péssima memória. Lembro-me das caras, mas não me lembro dos nomes das pessoas. É um bocado chato, não é?

Ele encolheu os ombros, mas lá lhe foi explicando que o importante é que tinham achado graça um ao outro. Não eram os nomes, ou de onde é que se conheciam. Recomeçaram a beijar-se, e ela acabou por concordar, embora já não se lembre bem com quê. 

publicado por Domingos Amaral às 11:58 | link do post