O Banqueiro Laranjinha (Aguenta lá esta!)

Ontem, Fernando Ulrich lembrou-me aquele alentejano da anedota, a quem perguntam se o burro aguenta a correr atrelado ao combóio, e ele responde: "entã nã há-de aguentar! Claro que aguenta! Ele até se está a rir, de língua de fora!" 

Foi desse alentejano que me recordei ao ouvir Fernando Ulrich dizer que "o país aguenta mais austeridade, claro que aguenta"! Que interessa que o burro já esteja de língua de fora, extenuado? Que interessa que o país esteja carregado de desempregados, que as empresas não consigam vender, que as lojas fechem, que as famílias estejam aflitas? 

Infelizmente, até as pessoas mais inteligentes têm péssimas ideias. É o caso de Fernando Ulrich. A fidelidade perfeitamente canina com que Ulrich defende o Governo só se percebe porque ele é um laranjinha fanático. Daqueles que, se não estivesse a gerir um banco, estava a colar cartazes, numa distrital qualquer. É por isso que, quando já quase ninguém acredita nas políticas deste Governo, lá aparece Fernando Ulrich para dar uma ajudinha aos seus amigos laranjas.

Vítor Gaspar enganou-se nas suas previsões? Fernando Ulrich louva-o, diz que "é um grande ministro das Finanças!" O Tribunal Constitucional examina as leis e obriga a mudanças? Fernando Ulrich ataca-o e chama a atenção para uma tenebrosa e sinistra "ditadura do Tribunal Constitucional"! O país está cansado e massacrado com a austeridade e com os "enormes aumentos" de impostos? Pois lá vem Fernando Ulrich declarar, em grande estilo, que "o país aguenta mais austeridade, claro que aguenta"!

Esta última afirmação caiu mal. Pode não ter sido essa a intenção, mas a verdade é que faz alguma impressão que alguém que ganha tão bem, e que por isso quase nada vai sofrer com a austeridade, venha dizer desta forma que o país "aguenta mais, claro que aguenta", quando para muitos portugueses essa é uma visão terrível do futuro. Para os desempregados, para as famílias que têm cada vez mais dificuldades, essa gozação do "aguenta" soa mal, muito mal, principalmente vindo de banqueiros, que não são propriamente inocentes nesta grave crise que atravessamos.

É que, convém lembrar, foram bancos como o BPI que passaram mais de uma década a emprestar dinheiro às pessoas, às empresas e ao Estado, contribuindo alegremente para este excesso de endividamento em que nos encontramos. E, no auge da explosão da crise financeira, foi com o dinheiro dos nossos impostos que o Estado salvou bancos como o BPI de uma situação bem mais grave. Não fossem as ajudas do Estado, e portanto o nosso dinheiro como contribuintes, e onde estaria agora o BPI?

O "aguenta" de Fernando Ulrich é pois duplamente desagradável, para dizer o mínimo. Ele não se devia esquecer que somos nós, portugueses, que estamos todos a "aguentar" uma vida cada vez pior para o poder ajudar a ele, Fernando Ulrich, a salvar o seu banco de um desastre. Quem devia "aguentar" mais eram os bancos e os banqueiros, não o resto do país. Mas pronto, desta vez Fernando Ulrich foi mesmo o "alentejano" da anedota...

 

 

publicado por Domingos Amaral às 11:10 | link do post