Um amor antigo (parte IV e fim)

Na telenovela, o marido matara a tiro a mulher e o amante dela, e foi nisso que ele pensou quando a encontrou naquela festa, acompanhada. Porque é que se lembrou desse melodrama sangrento? Não fazia qualquer sentido, eles não eram casados, não eram sequer namorados, ela não o estava a trair por estar com outro homem. Além disso, achava que tiros e honra eram coisas antigas, já não faziam qualquer sentido nos nossos tempos. Contudo, lembrou-se do episódio, da pistola, dos mortos nos lençóis, e nesse momento percebeu que nunca a iria perdoar, nunca iria esquecer o que se passara muitos anos antes, quando ela o traíra. Eram namorados apenas, muito novos, mas cornos são cornos, em qualquer idade doem e raramente se apagam da memória.

Viu-a ao fundo, encostada ao bar. Parecia divertida, falava com um homem muito animada. As cabeças quase se tocavam, murmuravam ao ouvido e olhavam nos olhos um do outro. Era fácil de perceber que estavam muito concentrados, e isso tinha um significado tão cristalino que ele não precisou de observar mais, e colocou naquele momento um epitáfio sobre o seu amor antigo. Por ali não ia mais.

Mas, não abandonou a arena, a festa até estava divertida, a música recordava os anos 80, um hábito que ele adorava, e deixou-se ficar. Pediu um whisky, encontrou amigos, falou da crise e de futebol, e foi conhecendo algumas mulheres que por ali passavam. Pelo canto do olho, ia espreitando, a ver se os via, e lá para as duas da manhã cruzaram-se, perto da pista de dança. Ela vinha à frente, o amigo atrás, ele sorriu e beijaram-se na cara. Ela apresentou o amigo, que tinha sotaque do Porto, trocaram duas ou três palavras de ocasião, e seguiram o seus respectivos caminhos. 

Ele gostava de dançar e na pista, animado, viu alguém que o interessou, meteu conversa, exibiu-se. Meia hora mais tarde estava encostado ao bar outra vez, mas agora já acompanhado por uma rapariga bem mais nova do que ele e bem mais gira do que ela, o seu amor antigo. Ou pelo menos era isso que ele achava agora, bem bebido e ainda ressentido do abandono a que ela o votara. 

O ressentimento é uma motivação como outra qualquer, e portanto investiu na moça. Trocaram beijos rápidos, e foi depois de um desses que sentiu uma mão nas costas. Não foi uma mão suave, foi mais um beliscão. Era ela, e estava sozinha. O amigo com sotaque tinha desaparecido, ou pelo menos não estava à vista. Queria esclarecer alguma coisa, mas ele já estava um bocado tocado, por isso não entendeu a pergunta.

- O quê?

Baixou o pescoço, encostou o ouvido mais próximo da boca dela, esforçando-se. Ela repetiu o que dissera.

- Porque é que não combinaste para virmos juntos?

Ele encolheu os ombros. Não valia a pena inventar desculpas. E ripostou:

- Mas tu não perdeste tempo...

Ela revirou os olhos, irritada:

- É um amigo, estava cá hoje, veio comigo à festa.

Nesse momento, talvez o amor antigo deles ainda tivesse salvação, mas a rapariga com que ele já trocara uns beijos decidiu intervir e perguntou, em voz alta, para que ela ouvisse bem:

- Então, não íamos até ao carro?

Ela ficou estupefacta, limitou-se a abanar a cabeça e sorriu, dizendo em voz baixa:

- Divirtam-se...

Afastou-se, foi ter com o amigo do Porto que estava à espera dela, como um fiel guarda-costas. Foram dançar, e provavelmente a história deles pegou fogo a partir dessa noite, mas isso ele já não sabe, há meses que não a vê. Só sabe é que confirmou o que pensava desde a primeira vez que tinham estado juntos, que ressuscitar um amor antigo raramente resulta. 

publicado por Domingos Amaral às 12:00 | link do post