Um amor antigo (parte II)

Uma semana depois, o telefone dele voltou a tocar. Quer dizer, o telefone tocava muitas vezes ao dia, mas aquele toque era especial. Era o toque que ele escolhera para ela, o seu amor antigo que regressara à procura de mais. Tracy Chapman, "Baby Can I Hold You". Tinham ido ao concerto juntos, um mês antes de ela lhe pôr dois palitos grossos no alto da testa. Escolhera-o para saber que era ela e para não a atender, por se lembrar do que sofrera, da "saliva que gastei para te mudar", como cantava o Rui Veloso, noutro concerto a que tinham ido juntos. "Foda-se, já passaram mesmo muitos anos", pensou ele antes de atender o telefone, pois quando se tratava de mulheres nunca conseguia cumprir o que prometia a si próprio quando estava sozinho.

- Olá, disse ela, a rir.

Porque é que ela ria? Será que era tão convencida ao ponto de pensar que ele estaria sempre pronto para ela? Ele não sabia que era nervosismo, mas é sempre difícil imaginar o que vai na cabeça de outra pessoa.  

- Olá, tudo bem?

Porque é que perguntava se estava tudo bem com ela se já sabia a resposta? 

- Tudo, disse ela. E contigo?

Está sempre tudo bem, pensou ele. É um bordão irritante, nunca ninguém diz, logo a frio, "estou na merda, farto de tudo e de todos". É como quando perguntamos "o que tens feito?", e do lado de lá respondem "nada de especial", e apetece logo ripostar "e que não seja de especial, o que é que tens feito?". 

- Tudo bem, respondeu

Não era dado a originalidades, embora as exigisse aos outros. Decidiu ir direito ao assunto e perguntou:

- A festa no Porto, que tal?

Ela nunca iria admitir que fora uma decepção, o João não lhe ligara nenhuma, estava casadíssimo, e nenhum dos amigos deles era interessante. Havia vários que eram giros, dois tinham investido nela, mas nem sabiam conversar. Eram egocêntricos, só falavam deles, do surf que faziam, das festas a que tinham ido e de quantas caipirinhas haviam bebido. Pilinhas com pilhas, tinha pensado ela, desconsolada, no regresso pela A1 no Domingo. E apesar de um deles já a ter abordado no Facebook ontem, não estava para aí virada.

- Foi gira, deitei-me às seis da manhã.

E aposto que sozinha, pensou ele, senão não me estavas a falar hoje. 

- Queres ir ao cinema?, perguntou ela.

- Hoje não posso, respondeu ele.

Devia ser dia de jantar com os filhos, foi o que ela concluiu. 

- Não tem de ser hoje, podemos ir amanhã, ou no sábado.

Quem é que vai ao cinema ao sábado, pensou ele? Está tudo cheio, mesmo com a crise.

- Mas se não quiseres cinema, podemos alugar um filme em casa, no Meo. 

Isso já lhe parecia mais interessante, refletiu ele. Casa, filme, sofá, sexo, cama, mais sexo: é a ordem natural das coisas.

- Amanhã?, perguntou ele.

Ficou decidido. Falaram de mais assuntos, mas o importante já estava dito, e no dia seguinte ele tocou à porta dela, com uma garrafa de vinho e dois queijos comprados nas Amoreiras. Para a ceia, que ambos já tinham jantado à pressa, uma qualquer comida retirada de uma qualquer embalagem descongelada no microondas, que é o jantar do costume de quem vive sozinho e tem mais pressa que tino. 

- Obrigado, agradeceu ela.

Ele abriu o vinho, ela foi buscar um prato e uma faca, cortaram os queijos e no fim falaram. Sobre o que lhes tinha acontecido, sobre o que lhes podia acontecer. Usaram expressões como "precisamos de tempo", "eu não sei bem o que quero", "o problema é meu", "depois de um divórcio é complicado gostarmos de alguém", mas cerca de vinte minutos depois ele já estava com as mãos nas cuecas dela (que reparou que eram novas), e a partir daí foi impossível parar. Depois, semi-nus e ainda no sofá, demoraram algum tempo a estabilizar a respiração, e por fim riram-se, bem dispostos, e voltaram a comer queijo e a beber vinho. Ela perguntou se ele queria ver o filme, e ele sorriu e disse:

- Já vi.

Ela riu-se, divertida. Ele observava-a com atenção, curioso, e uns segundos depois perguntou:

- Onde é que aprendeste a fazer...aquilo?

Ela revirou os olhos. O que raio era esta pergunta? Encolheu os ombros, mas não respondeu.

Então ele murmurou:

- No meu tempo, não havia disto.

Era verdade, no tempo em que ele a namorara, ela era mais contida, mas depois tinha estado casada muitos anos, sempre às ordens, e agora que se soltara das amarras do marido mais valia aproveitar o que aprendera. Sorriu-lhe:

- Tenho visto muitos filmes...

Raça da miúda, esperta como um alho. Teria sido inteligente da parte dele parar por aqui, mas a curiosidade que o assaltava levou a melhor. Perguntou-lhe:

- Desde que te separaste, sou eu o primeiro?

Ela olhou para ele um bocado desiludida. Porque é que os homens davam tanta importância aos outros homens? Se ela quisesse estar com outro homem não estaria ali com ele, no sofá, a beber vinho, a comer queijo, a fazer "aquilo". Decidiu ripostar:

- E eu, vou ser a última?

Ao ouvi-la, ele sentiu um ligeiro mal estar interior. Não gostava de pensar que a boa vida que tinha tido nos últimos meses podia acabar. Tinha tido muitas mulheres e sabia que cuecas novas eram sinal de muito sexo. Mas, ela era apesar de tudo diferente, era especial. E agora até fazia "aquilo". 

- Não nos vamos precipitar, disse ele. Vamos andando e vamos vendo.

Ela olhou-o nos olhos e perguntou:

- E enquanto vais andando e vendo, vais andando e vendo outras pessoas?

Isto começou a enervá-lo. O que é que ela queria? Queria "ser namorada", queria um "voto de fidelidade", uma promessa na Igreja, uma declaração reconhecida pelo Notário? 

- E tu?, perguntou ele. Vais mais vezes ao Porto?

A conversa estava em risco de azedar, por isso ela premiu o botão do comando e começaram a ver o filme na televisão. Hora e meia mais tarde, ele saiu de casa dela, não combinaram nada certo para os dias seguintes, mas a história é capaz de não acabar por aqui. 

publicado por Domingos Amaral às 11:59 | link do post