Lá fora...e cá dentro

Uma das coisas mais irritantes deste Governo é colocar a opinião internacional como um valor muito mais importante do que a opinião dos portugueses. Para Passos Coelho, Vítor Gaspar e seus "muchachos", é muito mais importante a "credibilidade interncional" do que a "credibilidade nacional". O que se diz "lá fora" é que conta, o que se diz "cá dentro" é pouco menos que irrelevante.

O que importa é estar bem visto aos olhos da senhora Merkel, da "troika", das agências de rating, dos "hedge funds" de Nova Iorque e dos bancos de Londres ou Frankfurt. Que se lixem o Cavaco, o CDS, a Igreja, a UGT ou toda essa corja de boçais que urra e chia por aí, neste cantinho à beira-mar plantado. Portugal, para este governo, é uma entidade abstrata, um "brand" que tem de ter opinião positiva, se possível com aclamação, nos fóruns da alta finança e nos jantares dos credores. É isso que interessa.

Portugal, para este governo, não são os portugueses, enquanto comunidade, Portugal é apenas um activo, um aspirante a "bibelot" das bolsas, que tem de obter um "goodwill" a qualquer custo. Que os portugueses estejam deprimidos, confrontados com um verdadeiro colapso económico, é coisa de pouca monta. É muito mais fundamental um B+ de uma qualquer Moody´s do que um "basta" gritado em coro pela Nação que sofre. Desde que os juros desçam, a nação que se lixe.

Este terrível desprezo pelos portugueses, e este patético deslumbramento com os estrangeiros, é uma das principais causas do mal que nos aflige. Passos e Gaspar comportam-se como dois parolos, fascinados com o "estrangeiro" e com vergonha da terrinha. Fazem tudo "para inglês ver", ou mais concretamente, para "alemão aprovar". Se os credores franzem o sobrolho, lá vão eles a correr dar uns pontapés aos cães, fechar os filhos no sótão, gritar com as criadas, tratar mal os vizinhos do lado, só para ficarem "bem vistos".

Não há sinal maior da nossa pequenez, da nossa falta de confiança nacional, do que esta genoflexão patética e acéfala à opinião internacional. Para o Governo, a "credibilidade" é o valor supremo, o deus a quem temos de rezar, um terço, dois ou três, os que forem preciso mesmo que os joelhos já estejam em carne viva. Os portugueses que se lixem, que amochem e se calem, que o importante é fazer a vontadinha aos lá de fora, e mais nada!

Um dia, este governo vai acordar e perceber que foi eleito cá dentro, e não lá fora, e que o seu principal dever é para com os portugueses, e não para com essa fada madrinha chamada "credibilidade internacional". E nesse dia, vão ter uma terrível surpresa, e por mais que a fada madrinha branda a varinha, lá fora, não haverá cá dentro quem os salve...      

publicado por Domingos Amaral às 12:27 | link do post