Falcões e Pombas

Quando Kennedy era presidente americano, inventou-se uma divisão política dentro da sua administração, a propósito da crise dos mísseis de Cuba. De um lado, existiam os "falcões", que defendiam uma intervenção radical, uma linha dura, que preferia o conflito. Do outro, estavam "as pombas", que propunham uma linha mais moderada e razoável, que preferia a diplomacia. Foi uma famosa divisão, e a partir dessa data, em muitos assuntos quase sempre se consegue dividir o mundo entre "pombas e falcões". Na actual crise, europeia e portuguesa, há "falcões" da austeridade e "pombas" orçamentais, há "falcões" de esquerda ou de direita e há até pessoas ou instituições que mudaram de campo, há um ano eram "falcões" e agora já são "pombas". Aqui vai a minha divisão:

 

"Falcões de direita" - São aqueles que defendem a linha dura, a austeridade a todo o custo como única forma de sair da crise, o "aumento enorme" de impostos deste orçamento. Em Portugal, este grupo é encabeçado pelo primeiro-ministro, Passos Coelho, tem em Vítor Gaspar o seu campeão, e em António Borges o seu "guru" espiritual. Têm com eles parte do PSD, alguns empresários e banqueiros, parte cada vez menor da opinião pública, mas ainda muito apoio na comunidade financeira e em alguma imprensa, nacional ou internacional. Lá fora, estão neste grupo Merkel e o Bundesbank, e por vezes o próprio BCE. 

 

"Pombas de direita" - São aqueles que defendem uma linha mais moderada, com menos impostos e mais cortes na despesa. Têm mais preocupações sociais com o desemprego e com as empresas, e estão profundamente desiludidos com o fracasso da "linha dura" em 2012. Em Portugal, este grupo inclui o CDS-PP de Portas, muitos sociais-democratas, como Manuela Ferreira Leite; a maior parte das confederações patronais, a maioria da opinião pública de centro-direita, e um apoiante de peso: o Presidente da República, Cavaco Silva, que não se cansa de colocar alertas no Facebook. Internacionalmente, o líder deste grupo é Mario Monti, primeiro-ministro italiano. 

 

"Falcões de direita que passaram a pombas" - Este grupo é encabeçado pelo FMI, que há ano e meio era muito duro, mas agora já está, e ainda bem, muito mais moderado e já reconhece que a austeridade "não está a funcionar". Neste grupo inclui-se também muita imprensa, especialmente a económica, que há um ano dava gritos de alegria e júbilo pela chegada da "troika", e agora já urra de indignação com o aumento de impostos. A julgar pelas sondagens, a maioria da opinião pública também teve um comportamento semelhante. 

 

"Falcões que, em certos dias e a certas horas, quase parecem pombas" - Neste grupo há dois exemplos. O primeiro é Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu, que de manhã diz que o BCE pode ajudar os países em dificuldades, e à tarde diz que eles têm de aplicar a "austeridade". O segundo exemplo é obviamente Durão Barroso, que de manhã lava as mãos dizendo que as medidas são decididas pelos governos e não pela União Europeia, e à noite diz que a "austeridade é necessária".

 

"Pombas de esquerda" - São aqueles que, mesmo a contragosto, aceitaram o "memorando da troika", mas que acham que a "receita" do Governo é errada e que existem mais alternativas. Este grupo é obviamente liderado pelo PS de António Seguro, mas tem na UGT e em João Proença o seu porta-voz mais credível. Há alguns economistas, nacionais e estrangeiros, que se alinham por aqui, como Paul Krugman ou Sitglitz, ou o português João Ferreira do Amaral. É um grupo que tem algum apoio da opinião pública e de certos comentadores famosos, e onde se inclui também o ex-presidente Jorge Sampaio. 

 

"Falcões de esquerda" - Não aceitam o "memorando da troika", e por vezes dizem que Portugal não deve pagar a dívida, que alguns consideram "ilegítima". Há ainda uns quantos que defendem a saída do euro. É aqui que se junta a esquerda caviar e a esquerda comunista. Incluem-se neste grupo a CGTP, com o seu novo líder Arménio Carlos, o PCP e o Bloco de Esquerda, e muitas personalidades independentes, que se reuniram recentemente no Congresso das Alternativas. É o grupo que defende a rua e as manifestações como forma de deitar o Governo abaixo.

 

"Pombas de esquerda que viraram falcões" - Embora seja um grupo minoritário, têm um apoiante de peso, Mário Soares. Relembre-se que Soares foi um dos principais responsáveis por insistir junto de José Sócrates que pedisse "ajuda internacional" e aceitasse o "memorando da troika". O antigo presidente, sempre  muito orgulhoso das suas ideias, revelou até ao país que esteve várias horas ao telefone com Sócrates, para o fazer aceitar a chegada da "troika". Um ano e meio depois, Soares transformou-se num dos mais ferozes lutadores contra a "troika" e o Governo, provavelmente sem ter ainda percebido que foi com a sua ajuda e dos seus telefonemas que a "troika" aterrou na Portela e Passos Coelho ganhou as eleições. Mas, enfim, a um ex-presidente permite-se tudo... 

publicado por Domingos Amaral às 12:17 | link do post