O Fantasma da Argentina

Sempre que alguém defende que a "austeridade" é o caminho errado para pagar a "dívida soberana", há logo alguém que contrapõe: "então, qual a alternativa, queres acabar como a Argentina?" Ora, convinha que nos recordássemos todos do que se passou na Argentina entre 1998 e 2002, para evitar os erros que lá se cometeram, e fugir a um desfecho tão caótico.

E o que se passou por lá? Pois bem, em 1998 o FMI aterrou na Argentina e impôs ao país uma política de austeridade muito forte - cortes na despesa do Estado, aumento de impostos directos e indirectos, privatizações das principais empresas públicas, e redução salarial geral, para funcionários públicos e privados. Além disso, e ao contrário do que tinha feito no passado noutros países, o FMI impôs uma taxa de câmbio fixa entre o peso e o dólar, o que em muitas coisas é semelhante a ter uma moeda única.

Quais foram os resultados desta política? Foram o que se esperava: queda da actividade económica, recessão generalizada, queda das receitas fiscais e aumento do defict do Estado e da dívida pública. Ou seja, entre 1998 e 2001, aconteceu na Argentina precisamente o que está a acontecer nos nossos dias na Grécia, em Portugal, e também em Espanha, Irlanda ou Itália. Esmagados entre uma brutal austeridade e uma impossibilidade de desvalorização cambial, os argentinos foram-se afundando numa espiral depressiva, ou naquilo que em economia se chama "a armadilha da dívida e da deflação".

E, sem ver resultados positivos, os argentinos começaram a revoltar-se, nas ruas e depois nas urnas. A receita de austeridade provocou uma convulsão social e uma revolta política profunda, e em 2001 subiu ao poder um populista de esquerda, chamado Nestor Kirchner - marido da actual presidente da Argentina - que para acalmar a revolta do povo tomou a decisão drástica de suspender os pagamentos da dívida argentina (vulgo, calote), e de desvalorizar o peso.

O que se seguiu não foi bonito de se ver. Durante quase um ano, a Argentina viveu momentos dramáticos, com fome, sem dinheiro nos bancos, e um desespero generalizado. Porém, a partir de meados de 2002, a situação começou a melhorar e o país voltou ao crescimento económico e regressou a paz política e social.

Devíamos pois retirar do exemplo argentino vários ensinamentos. O primeiro é o de que as políticas de austeridade do FMI ou da "troika" não resultam. A dívida em vez de diminuir aumenta; o deficit em vez de diminuir aumenta; o desemprego em vez de diminuir, aumenta. A recessão provoca mais recessão, e não há crescimento económico, mas sim decrescimento. O segundo ensinamento é o de que as políticas de austeridade conduzem normalmente a graves crises sociais e políticas, que podem desestabilizar fortemente um país, levando-o a tomar atitudes drásticas de revolta. 

Basta ver o que se está a passar na Grécia, em Portugal, e até em Espanha, para perceber que o filme na Europa está cada vez mais parecido com o filme argentino, e que se a direção das políticas não mudar, o resultado pode ser idêntico. Daqui a algum tempo, a revolta política e social será profunda e imparável, e ninguém sabe o que poderá acontecer. É isso que queremos para Portugal? É que, não tenham ilusões, ou paramos a tempo este caminho, ou o caos vai mesmo aparecer. De Atenas, Madrid ou Lisboa em 2012, a Buenos Aires em 2001 é um instante...

publicado por Domingos Amaral às 12:28 | link do post