As 50 sombras de Passos

Foi inesperado, à bruta, aquele anúncio de sexta-feira, em que Passos Coelho informou o país de que ia trazer mais sombras às nossas vidas. Houve algo de sádico naquelas decisões, que pareciam menos dolorosas antes das contas serem feitas, mas depois se revelaram uma monstruosidade. Passos ainda não sabe, mas já perdeu o país. A partir de sexta-feira, o jogo mudou, a opinião pública virou, e as explosões de raiva vão germinar, como num ovo de uma serpente germina o perigo. Os portugueses estão a fartar-se deste jogo de sado-masoquismo a que o governo e a Europa nos estão a submeter. A destruição de toda e qualquer expectativa para o futuro dá cabo dos nossos sonhos, deprime-nos e subjuga-nos. Passos encheu-nos de sombras, e muito mais do que cinquenta sombras vão cair sobre nós. No entanto, o masoquismo com que os portugueses têm vivido estes tempos, onde interiorizámos a culpa, chicoteando-nos nas costas por termos vivido "acima das nossas possibilidades", como diz o discurso do poder, esse masoquismo está a terminar. Infelizmente, o sadismo não está a terminar, antes pelo contrário, ganhou na sexta-feira uma dimensão diferente e perigosíssima. O chicote austero do governo, a chibata que nos fustiga, rasgou as feridas definitivamente, e agora vão nascer as revoltas e as cobras. Nenhum povo pode aguentar calado e quieto tanta e tão desnecessária brutalidade. Há outro caminho, há sempre outro caminho, e só os dormentes ou os estúpidos suportam a destruição permanente dos seus sonhos. A política Sado-Masoch continua, mas só os escravos têm de aguentar calados... 

publicado por Domingos Amaral às 12:17 | link do post